como um satélite girando ao redor da Terra...

28 Julho 2006

O Preço da Morte

Já me perguntaram se "eu sou a favor da pena de morte". Mas não conseguiram me arrancar nada mais que um "depende", após uma breve hesitação e expressão de dúvida. O foda é que o pessoal acha que a minha opinião sobre um assunto tão imensamente complexo pode se resumir a uma simples resposta como "sim" ou "não". Mas como pra mim nenhuma filosofia é prática e decidida, ponderei muito sobre o assunto até bolar essa dissertação nem tanto conclusiva.


Creio que o maior erro das pessoas no ato de julgar algo/alguém seja a negligência nesse processo. Parece tão simples e fácil julgar se alguém merece viver ou não... Caralho, estamos falando de VIDAS! Se condenar alguém à prisão já me parece uma tarefa bastante complicada, condenar alguém a morte é indiscutivelmente o mais delicado - e difícil. Exige precisão nas condições razoáveis, e uma dose de sangue frio.


Em algum momento eu até me permiti apoiar a pena de morte. Então me perguntei "Quem seria eu pra julgar quem merece morrer?" Logo fui mais abrangente; "Será que existe alguém no mundo capaz de julgar justamente a pena merecida por alguém?" E a parte mais foda é assentir que, independente de existir ou não justiça nessa lei, ela vigora pelo mundo afora, matando várias pessoas por motivos talvez nem tão graves.


A diversidade cultural nos dá a idéia de que a razão é relativa. Tráfico em Amsterdam significa Comércio Lícito, no Brasil significa Prisão, e na indonésia significa Morte. Você acha justo que a decisão da vida de alguém esteja lançada ao acaso das condições de uma cultura? Que a mesma atitude tomada por diversas pessoas em lugares diferentes tenha também diferentes significados e conseqüências? Essa é a prova de que nem toda lei é racional e justa. Pois eu creio que a razão seja única, e invariável.


Acho que antes de mais nada, o erro está no conceito de "crime". O cara que criou as leis de Amsterdam devia achar o uso de drogas algo completamente natural... Já o que criou as leis do Brasil devia considerar o uso "errado", mas tolerável. E o que criou a lei da Indonésia, devia repudiar. E aí, qual deles estava certo? Bom, no caso das drogas, isso é relativo, porque se trata de uma questão pessoal de cada ser humano julga-las, quando o uso diz respeito exclusivamente ao prejuízo do próprio sujeito. Mas e as outras várias razões que condenam pessoas à morte... Será que são justas? Eu gostaria mesmo de saber em que princípios se baseiam as leis em geral, e em especial aquelas que aplicam a pena de morte à certo tipo de crime.


Outra questão importantíssima - e que não é considerada - é o arrependimento. O povo Assírio da Mesopotâmia marcou a história com o princípio da Lei de Talião, do Código de Hamurabi: "Olho por olho, dente por dente". Há quem o ache justo, e eu confesso que também acho, depende. Já Ghandi contestou esse princípio: "Olho por olho e o mundo acabará cego". Me questionei a respeito desse dilema e acabei descobrindo uma das razões que [ provavelmente ] levou o filósofo a concluir isso. E essa razão é o arrependimento... seguido do perdão, e da abstenção da pena equivalente ao crime. É simples: quando tu se arrepende, não existe mais crime; a tua atitude delituosa passa a não fazer mais parte de ti. E se tu deixa de ser um criminoso, qual a razão de ser punido? Creio que TODOS mereçam uma segunda chance. Ou uma terceira, quarta ou quinta, caso esteja REALMENTE arrependido.


Mas o foda da história é: como saber se alguém está arrependido ou não? Se o arrependimento fosse uma condição válida para a indulgência, certamente os criminosos iriam mentir. E como ainda não inventaram uma maneira de penetrar a psique humana e ler pensamentos, a autenticidade do parecer do criminoso ficaria oscilando entre os olhares do mesmo e do corpo jurídico. Isso porque o ser humano ainda não aprendeu a ser humilde e sincero o suficiente pra perceber que o mundo é de todos, e não faz sentido considerar apenas a si próprio... Mas e se caso realmente houver arrependimento? E este for evidenciado e aceito... Acho mesmo que se deve perdoar e absolver. Porque a pessoa provou que aprendeu com um erro, e negar o perdão é certamente uma atitude, além de fria, burra. Aí Ghandi prova que mais uma vez estava com a razão... Quando o princípio irredutível e generalizador do "olho por olho" era nada mais que cego.


Eu até apoio a lei do olho por olho e a pena de morte, caso o crime seja realmente definido como um "crime" pelo senso ético geral, tenha sido cometido voluntária e conscientemente, e não haja arrependimento da parte do infrator. Tu mata com um tiro? Morre com um tiro. Mata com uma facada? Morre com uma facada. Nada mais justo que sofrer no couro o reflexo das próprias atitudes; algumas pessoas só se dão conta da realidade dessa maneira. "Olho por olho e o mundo enxergará o valor da vida". Mas esse princípio só é valido se levadas em consideração as condições como intenção e arrependimento, já que um "crime" diz respeito a um impulso mental, e a pena existe para punir a atitude correspondente à esse desejo... Sendo que nem sempre uma atitude significa um desejo consciente [ eu já fiz muita merda sem querer ], e o princípio do "olho por olho, dente por dente" parece considerar estritamente a atitude do sujeito, independente de existir ou não maldade.


Se levados em conta princípios mais éticos e racionais, poderíamos constituir um país/mundo mais organizado - e justo. Não existiriam mais inocentes vendedores de doces lisérgicos sendo eliminados friamente, enquanto do outro lado do mundo um assassino sanguinário e impassível ganha de presente um quarto com aluguel e comida gratuita por em media uns três anos.


Simplesmente não entra na minha cabeça, eu não aceito, eu não me conformo, eu fico perplexa! Não consigo consentir que pessoas estão sendo injustiçadas dessa maneira. Talvez esse texto devesse ser traduzido para outras línguas e entregue aos presidentes dos países hostis, ou pra porra da pessoa que faz as leis. A população não é capaz de fazer nada sozinha? De lutar por seus direitos? Ah, não é!? Precisa mesmo baixar a cabeça e escolher a alternativa menos pior, é isso? PORRA! VOTA NULO! Tem pessoas morrendo por culpa da TUA conivência.

5 críticas:

Anonymous Isadora deixastes...

Questões importantíssimas. Analisando a história das leis, como foram formadas, a maioria parte de costumes, que são feitos a partir de hábitos. Por isso que essa questão da pena de morte muda tanto em outros países ou até mesmo em estados, como nos EUA.
Creio que o problema não esteja necessariamente em quem fez as leis aqui no Brasil, mas no absurdo "costume" de formar mentes que achem brechas nelas. As leis daqui são muito utópicas, pra funcionar, precisariam de outro povo. Nada muda se não mudarmos o jeito de pensar do povo, um grande exemplo disso foi a arrepiante pesquisa onde a maioria das pessoas disse que se estivesse no governo também teria roubado...com este fato, não dá nem pra pensar que vamos conseguir anular alguma eleição.
Você faz a sua parte, mostrando sua indignação, por mais que poucos leiam, lêem e assimilam alguma coisa...o caminho é esse (embora pareça ínfimo). Tá add nos meus favoritos!

31/7/06 7:57 PM

 
Blogger garota sem título deixastes...

É, eu realmente não tava bem informada quanto à origem das leis. E se o povo é mesmo quem as decide, deveria ter uma melhor base moral pra isso...

Quanto à pesquisa sobre probabilidade de roubos... Acho que a resposta afirmativa foi uma tentativa de modéstia um tanto exagerada, da parte da população. Porque é mesmo muito fácil dizer "eu não roubaria"; vai saber se a situação não faz mesmo o ladrão? É lógico que eu não boto fé nisso, mas são todas hipóteses... talvez nem tão consideráveis pra mim, mas pra pessoas normais e mais "fracas", roubar pode depender apenas das condições da situação... :|

Eu já havia chegado à conclusão de que antes de mais nada, deve-se trabalhar a cabeça da sociedade, pra que ela mude de concepção e logo, de costumes. Na verdade meu grande ideal é esse mesmo, transmitir algumas idéias progressistas e filosóficas pro maior número de pessoas... e é realmente foda que um blog seja tão pouco visitado, mas tenho planos pra futuras estratégias de divulgação. :D

Brigada pelo comentario, :D

2/8/06 8:54 PM

 
Blogger Paulo Sempre deixastes...

Concordo!!!´
Como se determina a prova material de arrependimento?
Há quem tenha o «dom» de representar...

Bom blog
Paulo

3/8/06 11:31 AM

 
Anonymous Anônimo deixastes...

Tirar uma vida que tirou outra vida;
Tirar uma vida que contribuio pra tirar outra vida.
Hummm...[Hummm ¬¬'] É bem foda essa situação.
E de boa, só parei pra pensar REALMENTE nisso agora.


E sabia que ainda existe pena de morte no Brasil?

13/8/06 3:22 AM

 
Blogger garota sem título deixastes...

Nossa, nem sabia q existia aki no Brasil!
Não lembro d nenhum caso...
Mas o caso é que nem apenas quem "tira a vida de outra vida" ou "contruibuiu pra tirar outra vida", vem sendo condenado a morte nesse mundinho...
Varias razoes tosquissimas sao motivo pra pessoas morrerem.
Com certeza é bem foda essa situaçao..


brigada pelo comentario.

26/8/06 7:27 PM

 

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