Final Alternativo
Deitada no colchão estendido ao chão do quarto, a maior dúvida daquela garota era "por que a maioria das pessoas tem um final feliz?", já que a ela restara apenas uma única saída. Encolhida e trêmula ao canto do quarto, sentia a umidade das paredes de concreto lhe resfriar o corpo coberto apenas por uma blusa e peças íntimas, já que não saía dali havia mais de um dia. Sem alimento. Sem banheiro. Sem ninguém nem nada pra lhe consolar. Apenas uma infinidade de tempo para sofrer e repensar nos seus motivos suicidas.
Abriu os olhos e viu um pedaço do chão, por trás dos cabelos despenteados que lhe cobriam o rosto. Encarou a seringa esvaída de veneno ao lado do colchão. Por que eu? A única forma que encontrara de fugir da realidade deprimente fora injetar aquele líquido ardente nas próprias veias, de uma vez por todas. Qualquer minuto consciente a mais só lhe causaria ainda mais dor. Então estava ainda sóbria, esperando que tudo se apagasse, desejando o mínimo de dor possível. Quanto tempo ainda tenho?, se perguntou, pedindo em silêncio para que ninguém interrompesse os seus últimos momentos.
Os olhos começaram a embaçar com as lágrimas. Ela apenas os fechou, sentindo as gotas escorrerem pelo rosto até o travesseiro, a essa altura, encharcado. Abriu-os novamente e fitou as paredes do quarto. Estavam grande parte tapadas por colagens que ela mesma fizera nos últimos dias; suas poesias, suas fotos em vários humores, seus desenhos e suas expressões. Memórias de um fracasso, pensou, pois durante a sua vida inteira havia mesmo sido um fracasso. O azar andava ao seu lado e a levara a fazer o que se encontrava fazendo. Olhou mais amplamente aquele ambiente e ele lhe pareceu gótico. Rabiscado nas paredes, isento de móveis, somente com um colchão socado a uma canto, com uma garota em fase terminal tremendo e suando frio na sua superfície. Definitivamente depressivo.
A dor emocional começou a misturar-se com a dor física. A garota logo percebeu o efeito do veneno latejando em seus músculos e ofuscando a sua visão, precedendo uma parada cardíaca. Ela não sabia quantos segundos ainda teria, mas estimava que eram poucos. Isso já não lhe interessava, já que de qualquer forma, em breve não estaria mais ali. Sentindo a mente enfraquecer, reconheceu a imagem obscura na parede, dentre várias outras, mas aquela se destacou visivelmente. Retratava o seu próprio rosto. Sorrindo. Aquilo lhe fez sentir uma pontada de arrependimento. Um dia ela fora feliz e não sabia... Um dia ela esteve alegre entre as pessoas que amava e agora tudo estava perdido; o fim era uma questão de segundos e não havia mais nada a fazer. Desejou ter escolhido um final alternativo; um tiro, um enforcamento, a queda de um edifício de vinte andares, ou até mesmo cortar os pulsos, pois ao menos assim não teria tempo para remoer lembranças e se arrepender, como agora, que estava agonizando com a idéia de que poderia não ter sido tão radical.
Até na morte eu sou um fracasso. Ela se perguntou por que precisava sofrer tanto quando não se podia voltar atrás. Seu último pensamento lúcido seria o arrependimento por ter apelado para o suicídio. Ela havia feito tudo errado, o azar andava ao seu lado até o último momento. Ela desejou morrer duas vezes.
Abriu os olhos e viu um pedaço do chão, por trás dos cabelos despenteados que lhe cobriam o rosto. Encarou a seringa esvaída de veneno ao lado do colchão. Por que eu? A única forma que encontrara de fugir da realidade deprimente fora injetar aquele líquido ardente nas próprias veias, de uma vez por todas. Qualquer minuto consciente a mais só lhe causaria ainda mais dor. Então estava ainda sóbria, esperando que tudo se apagasse, desejando o mínimo de dor possível. Quanto tempo ainda tenho?, se perguntou, pedindo em silêncio para que ninguém interrompesse os seus últimos momentos.
Os olhos começaram a embaçar com as lágrimas. Ela apenas os fechou, sentindo as gotas escorrerem pelo rosto até o travesseiro, a essa altura, encharcado. Abriu-os novamente e fitou as paredes do quarto. Estavam grande parte tapadas por colagens que ela mesma fizera nos últimos dias; suas poesias, suas fotos em vários humores, seus desenhos e suas expressões. Memórias de um fracasso, pensou, pois durante a sua vida inteira havia mesmo sido um fracasso. O azar andava ao seu lado e a levara a fazer o que se encontrava fazendo. Olhou mais amplamente aquele ambiente e ele lhe pareceu gótico. Rabiscado nas paredes, isento de móveis, somente com um colchão socado a uma canto, com uma garota em fase terminal tremendo e suando frio na sua superfície. Definitivamente depressivo.
A dor emocional começou a misturar-se com a dor física. A garota logo percebeu o efeito do veneno latejando em seus músculos e ofuscando a sua visão, precedendo uma parada cardíaca. Ela não sabia quantos segundos ainda teria, mas estimava que eram poucos. Isso já não lhe interessava, já que de qualquer forma, em breve não estaria mais ali. Sentindo a mente enfraquecer, reconheceu a imagem obscura na parede, dentre várias outras, mas aquela se destacou visivelmente. Retratava o seu próprio rosto. Sorrindo. Aquilo lhe fez sentir uma pontada de arrependimento. Um dia ela fora feliz e não sabia... Um dia ela esteve alegre entre as pessoas que amava e agora tudo estava perdido; o fim era uma questão de segundos e não havia mais nada a fazer. Desejou ter escolhido um final alternativo; um tiro, um enforcamento, a queda de um edifício de vinte andares, ou até mesmo cortar os pulsos, pois ao menos assim não teria tempo para remoer lembranças e se arrepender, como agora, que estava agonizando com a idéia de que poderia não ter sido tão radical.
Até na morte eu sou um fracasso. Ela se perguntou por que precisava sofrer tanto quando não se podia voltar atrás. Seu último pensamento lúcido seria o arrependimento por ter apelado para o suicídio. Ela havia feito tudo errado, o azar andava ao seu lado até o último momento. Ela desejou morrer duas vezes.


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