como um satélite girando ao redor da Terra...

29 Março 2006

Eu me recuso a respirar

Eu ligo a TV a qualquer momento. "Homem bomba mata 20 no Iraque", "carro bomba mata 30 no Iraque", a cada dia uma novo ataque. Noticias sintéticas, apenas para nos dar noção do quanto o mundo está sendo explodido. Ligo a TV novamente. "Político rouba 1 milhão de reais do governo", "verba de escolas públicas vai para caixa dois", apenas um resumo para nos dar noção do quanto os espertos estão nos saqueando. Mais tarde olho de relance a capa do jornal e vejo homens sorridentes. "Presidentes da Perdigão e Sadia comemoram auto índice de venda anual". Oh, até que enfim uma boa notícia! Abro esse mesmo jornal e encontro uma saudação ao aluno que passou na Federal. "Parabéns, Fulano da Silva! 1° Lugar Geral UFRGS - Medicina!" Oh, que jovem estudioso! Maravilha! Eu já posso desligar a TV, largar o jornal na mesa e partir pra uma atividade bem distante das notícias parciais que acabei de receber.
A alguns milhares de quilômetros daqui, a família iraquiana atravessa uma rua movimentada. Estava voltando pra casa, quando de repente todos são arremessados ao chão por uma força maior. O pai ergue-se, inteiro, e presencia as cenas jamais transmitidas por aquele noticiário de TV. Sua filha mais nova, despedaçada ao chão, ele vê, nem mais nem menos que isso. Sangue, carne, pedaços do que há pouco existia sorridente, a mente e as atitudes agora inexistentes evaporam pelo ar, perdendo-se para o sempre acima de um corpo acabado. Extasiado, imóvel, não há nada a fazer; há um suspiro atrás estavam vivos, de mãos dadas, e agora tudo estava acabado. Apenas, acabado.
Na plataforma de embarque do aeroporto, o homem é barrado. Existe um volume curioso entre suas pernas. É revistado, e o que é encontrado? Dinheiro ali, dentro da peça íntima, vizinho de seus órgãos genitais, naquele momento, flagrados pelo segurança. Eu queria rir com isso na TV - uma das raras desgraças com seu lado engraçado; o desgraçado político é apenas mencionado na notícia, nada mais.
O carrasco atinge o seu animal assustado com uma marretada na cabeça. A vaca grita e esperneia, o estralo do crânio soa na peça suja, abafada, fedendo a sangue podre, com restos mortais espalhados, patas a cabeças já amontoadas em latas de lixo. Sangue fresco jorra da sua garganta; ela ainda sente dor. Seu corpo ganha o mesmo destino das suas companheiras. A morte, desconhecida pela sociedade consumidora da potente indústria alimentícia. A conivência, alimentada pelos covardes, estúpidos. A dor, desconhecida pelos desprezíveis homens da capa do jornal.
O pequeno garoto sofre com a doença da mãe, que sofre ainda mais que ele. "Serei médico um dia", pensa a criança, "e a salvarei desse sofrimento". O adolescente, persistente em seus sonhos, prepara-se com livros de Medicina, estuda Ciências no primário, idealizando o dia em que colocaria as mãos no conhecimento de verdade, para fazer valer suas intenções altruístas. O jovem menino, já pronto para por à prova o seu maior ideal, inscreve-se para a prova da faculdade pública. Então descobre que existe muita contradição ali - médicos necessitam saber de coisas que jamais irão usar na profissão. Sua mãe chorando no futuro - ele citando fórmulas de Física, e ela para de gritar? Ela sentindo uma terrível dor no peito - ele recorda oralmente o nome dos Continentes Geográficos e seus respectivos países; a dor cessa? Ele mentaliza tudo o que lhe exigiram em troca do poder de salvar vidas... e descobre que tudo aquilo serviu pra nada. O rapaz chora, vencido... está na lixeira seu sonho. Seu desejo. Seu talento. Uma pessoa útil no mundo. Para dar espaço ao Fulano da Silva, filho do Empresário, talvez do dono da empresa alimentícia da capa do jornal, talvez do dono da empresa de explosivos, talvez do político da cueca recheada, ou talvez mesmo do dono do sistema de televisão! Para que possa abrir seres humanos, costurar e ganhar um bom dinheiro com isso.

A realidade explícita em minha mente!
O esquema estúpido criado por seres humanos, bancado por seres humanos,
sustentado por seres humanos, perpetuado por seres humanos.
Estou consciente como os seres humanos nunca estiveram.
Esses seres tão hipócritas. Essa raça tão egoísta.
Esses seres tão podres. Essa raça desprezível.
Esses seres que eu odeio, repudio. Essa raça degradada.
Esses seres que eu já nem sei o que pensar a respeito,
pois são cruelmente imprevisíveis. Incontroláveis.

Eu me recuso a respirar o mesmo ar que eles.

Suicídio premeditado; vamos ver até onde eu agüento?

3 críticas:

Anonymous Rêzona deixastes...

A solução é explodir todas as bombas atômicas que tem por aí. E pronto! Menos sofrimento pra todo mundo.
Ai, ai

Te amo ser inteligente!

1/4/06 5:01 PM

 
Blogger lady tupush deixastes...

sabe quando alguém escreve o que você pensa? então, você vomita coisa ótimas.
adorei o blógue.
=*

2/4/06 8:46 PM

 
Blogger garota sem título deixastes...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

3/4/06 8:26 AM

 

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